Rememorando e Exaltando Stuart Scott

Por Clóvis Cavalcanti Presidente de Honra da EcoEco, Presidente da ISEE (2018-2019)

Stuart Scott, fundador e produtor executivo da Facing.Future.TV e da United Planet Faith & Science Initiative, faleceu em sua casa em Honolulu no dia 15 de julho, aos 72 anos. Sua precoce percepção do impacto humano nos ecossistemas do planeta resultou em missão pessoal, dedicada à educação do público sobre as consequências prejudiciais das mudanças climáticas e do aquecimento global. Após extenso curso de treinamento com o grupo Climate Reality, de Al Gore, em 2008, ele deixou seu emprego regular de stock broker em Wall Street para dedicar o resto de sua vida a expor a crise climática ao público. Fez isso sem emprego, com o dinheiro que ganhou no emprego largado.

Quando presidente-eleito da ISEE, em 2016, Peter May me pôs em contato com Stuart, de quem logo me tornei amigo. A partir do meu candidacy statement na eleição da ISEE, vi que poderia levar adiante minha intenção de conversar com o Papa Francisco sobre a encíclica papal Laudato Si’, publicada em 2015, e que tinha tudo que ver com a Economia Ecológica. Stuart também queria falar com Sua Santidade. Nós nos encontramos em Washington na reunião bienal da ISEE, em junho de 2016, estreitando nossa aliança em defesa dos propósitos que tínhamos em vista com respeito ao desprezo do meio ambiente e da vida nos modelos de crescimento da teoria econômica dominante, de teor neoclássico.

Logo começamos a pensar numa forma de conversar com o Papa Francisco e o Cardeal Peter Turkson, então presidente da Comissão de Justiça e Paz (hoje, Dicastério do Desenvolvimento Humano Integral) da Santa Sé. O acesso a uma audiência no Vaticano, com a possibilidade (muito difícil) de conversa com o Sumo Pontífice, foi conseguida graças a meu bom amigo argentino Atilio Borón, cientista político marxista (e ateu). Uma amiga dele conhecia o secretário particular de Francisco, padre Fabián Padocchio, argentino e economista. Cheguei ao último dessa forma. Padocchio me perguntou uma data boa para irmos a Roma. Falei 23 de novembro de 2016, entre outras possibilidades. Não havia garantia de conversa individual com o Papa. Teríamos que tentar uma forma para tal fim. Stuart então concebeu uma idéia interessante. Graças às conferências do clima da ONU, ele ficou amigo do arcebispo Serafim Kikotis, da Igreja Ortodoxa Grega, chefe da mesma em Zimbabwe. Nós poderíamos formar um grupo de até cinco pessoas. Eu ia com Vera, minha mulher, e Stuart. Kikotis então cabia no grupo. Stuart inscreveu-o na ISEE, pagando de seu bolso, generoso como era, a annual fee do arcebispo.

Fomos a Roma na data prevista. Kikotis, porém, um prelado que, graças a sua condição, certamente abriria as portas para chegarmos a Sua Santidade, não pôde ir. Mas seu nome estava junto dos nossos na lista dos autorizados para a audiência do Papa com a ISEE. Por esse ardil, no dia da audiência, falando com as autoridades do cerimonial, Stuart conseguiu que saíssemos da multidão de duas mil pessoas anônimas, ou mais, para outra de cerca de 100, que ficaria perto do Papa, e daí, finalmente, para os 15 que falariam com Sua Santidade. Entramos com um ticket branco, passamos para um ticket verde e terminamos com um ticket amarelo ouro, referente a 15 lugares marcados na primeira fila de cadeiras da sala da audiência. Seríamos os privilegiados do encontro face a face com Francisco. Sentamo-nos junto do embaixador argentino na Costa Rica e sua esposa. Quando findou a parte religiosa da reunião, o Papa veio falar conosco. Eu dispus de 5 minutos, pois Vera não falou. Sobraram 3 para Stuart que foi apoiado pela embaixatriz, Bárbara Urdampilleta. Stuart ainda entregou ao papa seu cartão de visitas. Achei engraçado. Ele preparou previamente um conjunto de papéis para eu entregar a Francisco, reforçando o que eu ia dizer.

Falei da ISEE. Francisco quis saber o que é economia ecológica. Expliquei rapidamente, usando o espanhol, e mostrei um breve texto meu sobre o assunto, que estava com os documentos entregues. Neles, havia um pedido de conversa com o Cardeal Turkson, que antes não estávamos conseguindo obter. Quatro dias depois, o cardeal ligou para Stuart e marcou a audiência para o dia 30 de novembro. Conversa excelente de uma hora sobre a encíclica e o que se poderia fazer em relação com ela a partir da ISEE. Ficamos amigos de Turkson, o que permitiu a Stuart voltar a ele em abril de 2017, com Joan Martínez Alier, passando 4 horas de conversa dessa vez sobre injustiça e conflitos ambientais, mineração, destruição do meio ambiente etc.

Assim, Stuart teve papel importante para se estabelecer uma relação entre a ISEE e o Cardeal Peter Turkson, a pessoa encarregada no Vaticano das questões de ecologia e desenvolvimento humano integral.  Conto isso como exemplo da importância de Stuart na minha presidência da ISEE. Ele passou a me prover desugestões estratégicas relativas a como podemos fazer com que a economia ecológica seja amplamente reconhecida globalmente como alternativa holística à atual economia destrutiva do crescimento neoclássico (abominada por Stuart; e por mim também). Dessa forma, foi-lhe atribuída a função de consultor estratégico da Board da ISEE.

Ao mesmo tempo, ele começou a produzir programas de vídeo chamados Climate Matters com membros da ISEE (Philip Lawn, Madhavi Venkatesan e Stanislav Shmelev são alguns que participaram) na COP-23 em Bonn, Alemanha, em 2017. E conseguiu que a ISEE se tornasse um Observer Party para as negociações climáticas patrocinadas pelo UNFCCC (e o IPCC).

Em 2018, na COP-24, em Katowice, Polônia, Stuart teve o privilégio de apresentar Greta Thunberg à imprensa mundial ali reunida. Ele a descobriu na Suécia pouco antes e a levou para Katowice, ficando amigo dos pais da menina, Svante e Malena (ver a rara entrevista de Stuart, Greta e o pai). A partir daí, Greta se tornou um sucesso mundial. Pois bem, a ISEE, e o mundo, devem a Stuart essa descoberta cheia de significado. E ele nunca fez qualquer questão de se apresentar como promotor de Greta. Sei bem disso porque eu o apoiei todo o tempo. Como presidente da ISEE, permiti que Greta fosse inscrita como parte da equipe da ISEE. Ela foi a Katowice com credencial no nosso nome. Seu pai, Svante, acompanhou-a.

Doente do câncer diagnosticado em fevereiro de 2019, na COP-25, em Madrid, em dezembro do mesmo ano, Stuart não realizou mais nenhuma atividade com a menina. Lá, ele se locomovia em cadeira de rodas. Nós iríamos tentar, contudo, levar Greta para a ISEE2020, que estava programada para Manchester. Cheguei a falar sobre isso com Svante. Mas a intermediação de Stuart era básica no caso, e não pôde acontecer. Em Madri, em seu programa Climate Matters, Stuart recebeu um membro da EcoEco, Luiz Marques, que tratou do assunto examinado em seu premiado livro Capitalismo e Colapso Ambiental, de 2015.

Em Roma, em 2016, nós passamos duas semanas para realizar nosso projeto de conversa com o Papa e o Cardeal Turkson. Visitamos a Santa Sé várias vezes. E aproveitamos para trocar idéias. Foi aí que ficou evidente para mim, o espírito militante guerreiro de Stuart. Falamos muito sobre a insanidade do crescimento econômico e o papel destruidor da moeda no mundo. Eu lhe apresentei então o livro do falecido Hans Binswanger (1929-2018), um brilhante economista suíço, meu amigo, Money and Magic: A Critique of the Modern Economy in the Light of Goethe’s Faust (original alemão de 1985; tradução inglesa de 1994). Stuart tinha uma visão assustadora do dinheiro, que ele justificava pelos horrores que testemunhara em seus anos em Wall Street.

Com sua experiência de stock broker no Merril Lynch, Stuart tinha muito a dizer a nós. Essa passagem pelo templo do dinheiro cessou em 2008. Stuart rompeu com o tipo de promotor de desgraça econômica de Wall Street e embarcou em uma “carreira de serviço” à humanidade e à vida na Terra, como explicava. Trabalhou incansavelmente desde então no esforço de estancar a corrida precipitada do mundo industrializado à beira do precipício do caos ecológico. De fato, sua luta voltou-se para salvar a vida no planeta. Um dos pontos a esse respeito era sua crítica quanto ao tipo de reuniões bienais que a ISEE fazia até 2018 – dezenove ao todo. Seu entendimento levou a um pedido de conferências virtuais.  No começo, não aderi à proposta. Mas estou convencido agora de que esse é um caminho coerente com a visão ecológica da economia.  Stuart e Josh Farley, que o defendiam, estavam com a razão no caso.

Assim, apresento Stuart dizendo de minha admiração por ele, acrescida desde o começo de 2019 por testemunhar sua luta pela própria vida, sem esquecer o compromisso maior que o animava, de lutar pela vida no planeta. É disso que resulta sua posição de combate contra o dinheiro e a abominação que é growth economics. O espírito guerreiro heróico de Stuart pode ser captado no lema que ele adotou, escrevendo durante um tempo no final de suas mensagens de email, depois de adoecer seriamente: uma citação de Sir Andrew Barton (1466-1511), marinheiro escocês que ganhou notoriedade como corsário, morto em batalha e homenageado em canções folclóricas inglesas e escocesas: “Lutem, meus homens. Estou ferido, mas não estou morto; vou me deitar e sangrar um pouco, e então me levantarei e lutarei novamente.” Stuart exemplifica o lado heróico da citação, sem a notoriedade, é óbvio, do corsário que a proferiu.

Para aprofundar as discussões que nos interessam, no início de 2021 ele me propôs a criação de um fórum que tratasse da economia ecológica. Fizemos isso, denominando o grupo de Circle of Elders (Círculo de Anciões) da Economia Ecológica. Na realidade, a idéia surgiu no contexto da colaboração que a ISEE está prestando ao Dicastério do Desenvolvimento Humano Integral da Santa Sé, dirigido pelo Cardeal Peter Turkson, nosso amigo, junto a quem a ISEE colocou um filiado, estudante de doutorado, jovem, como estagiário (intern) em janeiro último. O candidato selecionado foi Nicholas Fitzpatrick, um australiano com todos os requisitos da pessoa que buscávamos, recrutado através de chamada feita pelo Boletim da ISEE. Para financiar esse estágio, contamos com o apoio de um cientista do grupo organizado por Stuart, FacingFuture. Nosso propósito foi o de levar uma visão do desenvolvimento humano  integral, segundo a economia ecológica, que mostre alternativas que sirvam de antídoto para a ilusão de crescimento infinito em um planeta finito.

Educar o público sobre a crise climática e oferecer uma solução por meio da economia ecológica são seus legados que ficam. O alcance de Stuart é global, difundindo informação acerca de um sistema climático em mudança perigosa, em mais de uma centena de apresentações que promoveu em encontros sobre o clima, bem como inúmeras conversas gravadas com cientistas seniores e defensores do meio ambiente, disponibilizadas ao público. Sua apresentação de Greta Thunberg aos 15 anos de idade na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática COP24 (Conferência das Partes), na Polônia, foi o início da notável trajetória de Greta para um movimento global chamado Fridays for Future. Ele também influenciou um relutante James Hansen, um nome de peso da ciência do clima, para acompanhá-lo à cúpula do clima de Paris em 2015.

Através de seus esforços pela justiça climática, Stuart foi um defensor entusiasmado da união da fé com a ciência. Como parte de minha inciativa para aproximar a ISEE do Vaticano (em torno da encíclica Laudato Si’), foi que ele me acompanhou nas audiências que tive como Presidente-Eleito, com o Papa Francisco, em 23 de novembro de 2016, e o Cardeal Turkson (no dia 30). Encorajamos ambos quanto ao reconhecimento do papel da Igreja na proteção da criação de Deus, e na inspiração de congregações para agirem no tocante à mudança climática. Ele sugeriu que o Papa Francisco participasse da cúpula do clima, COP26, em Glasgow adiada de novembro de 2020 para novembro de 2021. O Papa, recentemente, concordou em ir à Escócia.

Líderes religiosos, incluindo o Dalai Lama e o arcebispo Desmond Tutu, bem como o Conselho Mundial de Líderes Religiosos da ONU, o Conselho Mundial de Igrejas e o Conselho Central da Fé Baha’i endossaram os esforços incansáveis de Stuart. As organizações seculares Greenpeace, 350.org e o Center for Biological Diversity também o fizeram com respeito à Declaração Inter-religiosa de Scott. A 350.org foi criada por Bill McKibben , autor, ambientalista e ativista, que escreveu The End of Nature (1988), o primeiro livro para o grande público sobre o aquecimento global.

Stuart participou de dez das últimas treze Conferências das Partes (COP), da ONU. Nelas, conduziu e transmitiu entrevistas e painéis de discussão sob a bandeira das organizações por ele criadas Climate Matters.TV e ScientistsWarning.org, visando difundiar o alerta acerca da emergência climática emergente.

Stuart nos aconselhava a não temer entrar em contato com qualquer pessoa que possa promover o esforço de despertar consciências para o reconhecimento de que a economia do crescimento, baseada na ganância e no consumo cada vez maior, está destruindo nosso planeta de forma irreversível. Ele defendia uma economia circular rigorosa, sem crescimento e baseada nos princípios da economia ecológica, como na proposta de Herman Daly do steady state.

A paixão de Stuart por esse trabalho estendeu-se praticamente até o dia de sua morte (15 de julho), incluindo sua última conversa, com Noam Chomsky, gravada em 29 de junho, que se pode ver em FacingFuture.TV. Lá se podem encontrar também muitas conversas com ecologistas, engenheiros nucleares, economistas e cientistas ambientais. Mais do trabalho dele, idéias de ação e comentários estão no site FacingFuture.Earth.

O compromisso ousado de Stuart com um planeta sustentável e a alocação equitativa de recursos inspira pessoas em todo o mundo. Seu legado de dedicação à preservação da vida e do planeta se acha agora nas mãos experientes de seus colegas da FacingFuture e do Circle of Elders da Economia Ecológica, do qual tenho o privilégio de participar. Certamente, a vida de Stuart foi a de um guerreiro a favor da única riqueza que efetivamente existe, no dizer do grande naturalista e ambientalista escossês-americano John Muir (1838-1914), que é a vida.

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