Goldemberg vê "descarbonização" global.

Nas negociações internacionais sobre mudança do clima costuma-se lembrar que é impossível cortar emissões de gases-estufa se não se sabe como medi-las. Um dos grandes debates entre os países é estabelecer os mesmos padrões de medição, pharm para tornar as emissões comparáveis e poder fiscalizar, uns aos outros, os cortes prometidos.

 

O professor Jacques Marcovitch, da pós-graduação do Departamento de Administração da Faculdade de Economia (FEA) da Universidade de São Paulo, está trazendo esse tema para o setor empresarial brasileiro. "Está na hora de deixarmos de ficar só na retórica da sustentabilidade e passarmos para a métrica", diz. "Queremos oferecer alguns indicadores que sirvam de base para essa discussão."

 

Na visão de Marcovitch, as métricas da sustentabilidade empresarial devem levar em conta seis parâmetros na fabricação de qualquer produto. A produção sustentável de um carro, de um eletrodoméstico ou de um rolo de papel toalha terá que mostrar qual foi a redução do consumo de energia por unidade produzida, o corte nas emissões de gases-estufa, a diminuição no consumo de água e a redução de dejetos.

 

Os outros dois pontos são o aumento do número de patentes por 100 mil habitantes e o aumento da cobertura florestal por unidade. Marcovitch explica: "A unidade se refere a uma unidade de produção de uma empresa, ou seja, um produto". Também há relação com a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) de um Estado ou país.

 

Não é só isso. "Para que o Brasil possa influenciar a agenda ambiental mundial ele deverá dar um salto na inovação tecnológica", diz o professor. "O fato de ter cobertura vegetal e riquezas naturais não vai nos garantir ser um país importante neste século, se não tivermos um diferencial significativo na inovação tecnológica." Nesse quesito, o Brasil vem perdendo para a China, a Índia e a África do Sul, entre outros.

 

A inovação tecnológica, somada à atenção ao consumo de recursos naturais, tem sido um fator importante na redução de gases-estufa e o Brasil tem bons exemplos disso. "Hoje sabemos quanto de energia consumimos ao mês. O que pretendemos é fazer com que os consumidores saibam quanto gastam por dia, qual o consumo de cada equipamento ou quais são as horas de pico energético de consumo da família", diz Odair Marcondes, sócio-fundador da brasileira CAS Tecnologia, empresa que trabalha com sistemas de eficiência energética e redes inteligentes.

 

Marcondes lembra que conhecer o consumo é o primeiro passo para a redução. A CAS também trabalha com medidores individuais de água para condomínios. "Quando cada morador do prédio passa a conhecer seu consumo de água, a conta cai de 20% a 30%".

 

Ontem, na FEA, foram apresentados casos de tecnologias verdes desenvolvidas no Brasil e analisados por estudantes da pós-graduação da disciplina "Estratégias Empresariais e Mudanças Climáticas", ministrada por Marcovitch e pelo professor Isak Kluglianskas. Uma mudança estrutural em uma peça para automóveis, um virabrequim, feito por uma equipe brasileira da ThyssenKrupp , aumentou a vida útil da peça e reduziu o uso de combustível do carro.

 

Na subsidiária brasileira da Magneti Marelli, empresa do grupo Fiat, criou-se um sistema que elimina o tanque de gasolina dos carros flex. A tecnologia, que já está sendo exportada para os Estados Unidos e Europa, reduz as emissões de poluentes. Foi também a Magneti Marelli que desenvolveu e patenteou outra tecnologia relacionada a motores flex, dessa vez em aviões.

 

Dados preliminares indicam que o uso de etanol nos aviões pode significar redução de aproximadamente 38% das emissões de CO2 na decolagem, e de perto de 63% das emissões que ocorrem em velocidade de cruzeiro, em relação aos aviões que usam combustível tradicional.

 

Marcovich lembra que, atualmente, o uso de indicadores sustentáveis é voluntário e as empresas escolhem o que querem divulgar em seus balanços. A tendência mudará, acredita. O professor cita, por exemplo, as novas regras do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), em vigor desde o início de agosto. De agora em diante, a empresa que se gabar de ser sustentável em sua peça publicitária poderá ser instada a provar o que a torna verde.

 

Goldemberg vê "descarbonização" global - A matriz energética da China, dos Estados Unidos, da Índia e da União Europeia está se tornando cada vez mais limpa e menos carregada de combustíveis fósseis. "Está ocorrendo uma descarbonização progressiva no mundo", disse ontem, no seminário da FEA, um dos maiores especialistas em energia do país, o físico José Goldemberg. "A China, por exemplo, vem fazendo esforços tremendos nessa direção, talvez menos motivada pelo desejo de reduzir suas emissões de gases-estufa ou por virtude, e mais por vantagens econômicas."

 

O professor lembrou à plateia de economistas e empresários que desatrelar o crescimento econômico do uso de recursos naturais, do aumento das emissões de gases-estufa e do acréscimo na produção de lixo é uma opção econômica pouco inteligente. A palavra mágica é eficiência. "A quantidade de energia que se usa por unidade de PIB está diminuindo e convergindo, no mundo todo", prosseguiu.

 

"O sistema energético mundial muda, mas leva muito tempo", continuou. Exibiu gráficos onde se via que por volta de 1920 foi o pico do uso do carvão no mundo. Em 1980, foi o auge do petróleo. "Essas mudanças levam 30 ou 40 anos, envolvem enormes gastos em infraestrutura, o sistema se move lentamente, como um transatlântico." Goldemberg insistiu que promover a inovação tecnológica é um instrumento para estimular a chamada economia verde. "A gente fica impaciente porque as renováveis estão demorando muito para aumentar sua participação, mas é assim mesmo".

(Valor Econômico)

 

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